Fake news: o problema é mais embaixo

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Quase todos os veículos se dizem imparciais – é como que uma formalidade, por uma questão de imagem pública –, mas os que praticam verdadeiramente a imparcialidade são raros. Agem mais ou menos como o Millôr quando se definiu, ironicamente, como um homem democrático, que respeitava as opiniões de todos, desde que concordassem com ele

Por José Carlos Fineis

Fake news é mesmo um problemão. Mas a maior fake news de todas é aquela em que um veículo afirma ser democrático e pluralista e, no dia a dia, pratica exatamente o contrário: exclui segmentos, abraça ideologias de classe, direciona a pauta para não dar espaço a quem é de outra corrente, coloca interesses de grupos e pessoas acima dos interesses coletivos, criminaliza movimentos legítimos, põe em evidência apenas aqueles que representam sua forma de ver o mundo, acoberta as falhas dos amigos e prega “o rigor da lei” para os que pensam diferente – tudo isso, sob uma falsa aura de independência e imparcialidade.

Não estou aqui dando indiretas para este ou aquele veículo, mesmo porque os veículos mudam com o tempo: em algumas fases fazem bom jornalismo; em outras, fazem bobagem. Então, não há como avaliá-los sem considerar, pelo menos, sua importância pretérita e, confiando que os comportamentos bizarros não durem para sempre, sua capacidade potencial de retomarem o caminho da honestidade jornalística e voltarem a ser úteis um dia. “Veja” e “Istoé”, por exemplo, já foram grandes revistas. Hoje nem sei como definir o jornalismo que praticam. Jornalismo de nicho, talvez. Mas, se sobreviverem às opções erradas que seus dirigentes fizeram, podem ainda voltar a ter alguma credibilidade e prestar bons serviços aos leitores.

(Um parêntese importante. Essa constatação vale também para a TV, que deve ser a única ou principal fonte de informação de 90% dos brasileiros. Por acaso, centrei o foco, neste artigo, na imprensa escrita. Porém, o mesmo processo ocorre em muitos telejornais. O poder que o Jornal Nacional tem sobre a sociedade brasileira é descomunal. E todos sabem, ou já deveriam ter percebido, que ali a pauta é bem dirigida. Não existe uma linha que não corresponda à agenda da Rede Globo, a qual, por sua vez, dá até medo de pensar em quais agendas está atrelada.)

O fake – não as fake news, mas o fake journalism dos órgãos ditos sérios, ou seja, o próprio processo de seleção, abordagem, produção e apresentação das notícias, mais intestinal e perigoso do que as fake news – é um mal que assola a imprensa, à direita e à esquerda. Quase todos os veículos se dizem imparciais – é como que uma formalidade, por uma questão de imagem pública –, mas os que praticam verdadeiramente a imparcialidade são raros. Agem mais ou menos como o Millôr quando se definiu, ironicamente, como um homem democrático, que respeitava as opiniões de todos, desde que concordassem com ele.

De toda forma, é preciso acreditar no poder dos leitores de regenerar o jornalismo de fora para dentro, diante da frouxidão dos que, por opção, se recusam a fazê-lo de dentro para fora. E isso se faz prestigiando o que existe de bom e honesto no meio, não aceitando gato por lebre, mostrando que o verdadeiro patrão, em qualquer veículo, não é nem o dono, nem o gerente, nem o editor-chefe. É o leitor. Sem leitor, literalmente, não tem negócio. E a mentira repetida mil vezes não se torna verdade, como querem crer os discípulos de Goebbels. Sem leitores, ela ecoa no vazio.

(Ilustração: Pinóquio por Enrico Mazzanti, Florença, 1883)

José Carlos Fineis é jornalista, editor de livros e produtor de vídeos, e sócio-proprietário da Loja de Ideias Produção Audiovisual, Jornalismo e Edição Ltda


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